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“Talvez a essência da perspectiva liberal pudesse ser resumida em um novo decálogo, não destinado a substituir o antigo decálogo, mas somente a suplementá-lo. Os dez mandamentos que, como professor, eu gostaria de promulgar, deveriam ser definidos assim:
1. Não sinta absolutamente certeza de nada.
2. Não pense que valha a pena proceder escondendo a evidência, pois a evidência certamente virá à luz.
3. Não tente desencorajar pensando que você tem certeza de que terá êxito.
4. Quando enfrentar oposição, mesmo que seja de seu esposo ou filhos, tente vencer pelo argumento e não pela autoridade, pois uma vitória que depende da autoridade é irreal e ilusória.
5. Não tenha respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a ser encontradas.
6. Não use o poder para suprimir as opiniões que você julga perniciosas, pois, se o fizer, as opiniões irão lhe suprimir.
7. Não tema ser excêntrico em opinião, pois cada opinião hoje aceita foi uma vez excêntrica.
8. Sinta mais prazer na dissensão inteligente do que na concordância passiva, pois, se você valorizar a inteligência como você deveria, a primeira implica em uma concordância mais profunda do que a última.
9. Seja escrupulosamente confiável, mesmo se a verdade for inconveniente, pois é mais inconveniente quando você tenta escondê-la.
10. Não sinta inveja da felicidade daqueles que vivem em um paraíso de loucos, pois somente um louco pensará que isso é felicidade.”

(RUSSELL, Bertrand. The Best Answer to Fanaticism – Liberalism; Its calm search for truth, viewed as dangerous in many places, remains the hope of humanityNew York Times Magazine, 16/12/1951 [Subscription or payment needed])

Considerado o melhor filme de todos os tempos, Cidadão Kane é um marco na história do cinema.

Orson Wells, seu idealizador, sempre foi um apaixonado pelas artes dramáticas. Abandonou a escola desde cedo para se dedicar a dramaturgia, o que o levou a criar em 1937 sua própria companhia teatral. Mas a notoriedade de Wells deveu-se a um episódio bem curioso de sua carreira. Em 1938 Wells propôs a rádio Columbia Broadcasting System a transmissão de uma adaptação de A Guerra dos Mundos. No dia 30 de outubro daquele ano a rádio levou ao ar a transmissão radiofônica com viés jornalístico, onde se narrava a invasão da Terra por alienígenas vindos de Marte. Grande parte da população americana ignorava ser a transmissão apenas uma encenação e acreditou cegamente em um ataque real. Houve até quem atirasse em caixas d’água no topo de edifícios acreditando serem naves espaciais. No dia seguinte, após tudo ser explicado, todos queriam saber quem foi o autor da brincadeira, e então o nome de Orson Wells tornou-se evidente.

Sua outra façanha veio em 1941 quando Cidadão Kane, seu primeiro filme, foi exibido nas salas dos cinemas americanos. Sucesso de crítica e de público. Além de apresentar uma história envolvente e emocionante, Wells conseguiu revolucionar a linguagem do cinema fazendo com que a cine dramaturgia entrasse numa nova era.

O filme conta a história de Charles Foster Kane a partir de sua morte. A cena inicial nos apresenta Kane já moribundo, segurando uma esfera da neve, em seguida pronuncia a palavra “Rosebud” e morre. Kane é um magnata, e sua morte tem repercussão mundial. Um breve documentário sobre sua vida é feito, mas os jornalistas estão insatisfeitos, a vida e morte de Kane talvez signifiquem muito mais, era como se algo estivesse faltando. É então que alguém lembra dos rumores sobre sua morte, de ter ele havido pronunciado “Rosebud” como sua última palavra. O que significaria aquilo? O que Foster Kane queria dizer? É aí que entra o jornalista Jerry Thompson, enviado para investigar o mistério em torno do suspiro final de Kane. Nesse processo Jerry trava diálogo com as pessoas mais próximas do magnata, e a cada entrevista a vida de Foster Kane vai se patenteando diante do espectador. De um garoto pobre a um dos homens mais ricos da América, a história de Kane vai crescendo entre os altos e baixos de sua vida num intricado quebra-cabeças.

O filme foi roteirizado e dirigido por Orson Wells, e para não bastar, o personagem título foi interpretado pelo próprio Wells. Inclusive esse é um dos motivos que fazem de Cidadão Kane um filme espetacular. Dificilmente quem senta na cadeira de diretor consegue também atuar e dirigir com perfeição, realizar essa proeza sendo um estreante no cinema, faz de Wells um dos maiores diretores da história.

Mas, embora toda a trama gire em torno da palavra Rosebud, pronunciada por Kane ao morrer, outro mistério permanece. Kane estava sozinho no quarto, e uma enfermeira entra em seu socorro quando ouve o estilhaçar da esfera da neve sobre o chão. Ninguém ouviu a última palavra de Foster Kane, como então ficaram sabendo ser ela “Rosebud”? Seria essa uma falha no roteiro de Kane? É provável que não, ao que tudo indica isso seria mais uma brincadeira para mexer com o público e atiçar a curiosidade dos mais atentos, pois o Orson Wells de Cidadão Kane ainda era o mesmo Wells de A Guerra dos Mundos.

Vejam este belo vídeo, ganhador do Oscar de melhor curta-metragem de animação. Chama-se The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore, de William Joyce e Brandon Oldenburg. Ele conta a história dessa relação maravilhosa que existe entre as pessoas e os livros, e do bem (ou mal) que um pode fazer com ou pelo outro. A história começa quando o Sr. Morris, que tranqüila e sossegadamente tenta ler em sua varanda, é apanhado por um terrível ciclone que devasta toda sua cidade, num evento digno de O Mágico de Oz.

O ator Buster Keaton foi usado como modelo para a construção do personagem título. Morris tem a mesma expressão apática e congelada de Keaton, e também o mesmo carisma que cativava o público nos dias do cinema mudo.

O curta metragem até que é um pouco longo, mas vale a pena assistir.

Carnaval, uma ode à inépcia

Festa da Carne

Eis que se aproximam as festividades carnavalescas. Para muitos um período de alegria, para mim de consternação. Confesso minha antipatia para com essa festa inebriantemente funesta. E para os que gostam dela tenho a oferecer apenas o meu respeito, e isso já é mais do que suficiente, afinal de contas gosto é gosto, e “às vezes” gosto não se discute.

O carnaval é uma festa antiga. Alguns acreditam que suas raízes mais profundas encontram-se no Egito dos faraós, mais precisamente em rituais festivos em homenagem à deusa Ísis. Outros encontram correlatos nas bacanais, reuniões orgíacas em homenagem a Baco, o deus do vinho greco-romano. Outras três festividades romanas entram também na progênie do carnaval, a Carrum Navalis, as Februalias e Lupercalias.  Carrum Navalis era a entrada do corpo de guerra naval que abrilhantava as Dionisíacas, festas dedicas a Dionísio, que era o mesmo e já referido, Baco. Alguns estudiosos até vêem na locução Carrum Navalis a origem da palavra carnaval, embora seja possível talvez se trate apenas de uma coincidência lingüística.

O jovem Baco (1884) de William-Adolphe Bouguereau

O jovem Baco (1884) de William-Adolphe Bouguereau

 

As Februalias e Lupercalias, muito celebradas na época dos Césares, eram festas realizadas no último mês do calendário romano, o nosso fevereiro, inclusive a palavra fevereiro vem de Februss, que era o deus celebrado durante as Februalias. Februss era o deus etrusco da morte que encontrava seu equivalente no Plutão dos romanos e o Hades do gregos. As festas fundamentavam-se na idéia de purificação e renovação da vida. Sacerdotes vestidos com peles percorriam as ruas açoitando mulheres com chicotes feitos com tiras de couro de bode, isso livraria o povo dos maus espíritos e de maus agouros, e ao mesmo tempo concedia às açoitadas a benção da fertilidade.

Mais tarde estas festividades seriam “cristianizadas”. Mais uma vez, com o intuito de solapar o paganismo em terras católicas, a igreja tratou de modificar o ritual romano, dando-lhe nova roupagem com a comemoração do martírio de São Valentim em 14 de fevereiro, dia que antecedia o final da Lupercal. Porém, nada impedia que neste período as festas fossem realizadas com muita diversão e excessos, desde que ao início da Quaresma tudo isso fosse abdicado.

Nessa época de festejos o povo estava livre para comer muita carne, coisa que era vista como sinônimo de pecado, pois as classes mais abastadas, que consumiam muita carne, eram também as mais dadas à luxúria. A igreja, mestra em analogias descabidas, associava uma coisa a outra.

Sendo o “comer carne” sinônimo de pecado, então que o povo comesse dela antes da Quaresma, pois durante a mesma deveria dela se abster, daí o “carne levare” que significa “abstenção de carne”. Essa expressão sim, parece ser a mãe da palavra carnaval.

Festa das Máscaras

Cada povo europeu celebrava a pândega, entre a Festa de Reis e início da Quaresma, da melhor forma que lhe aprouvesse. Porém, as folias mais populares e mais difundidas foram as venezianas com seus bailes de máscara. Aqui no Brasil o costume arraigou-se graças a uma atriz chamada Clara Dalmastro que em 1946 realizou, no teatro São Januário do Rio de Janeiro, o primeiro baile de máscaras num ambiente de espetáculos.

O uso de máscaras também descende de tradições antigas, especialmente em rituais mágicos, sacerdotes mascarados figuravam melhor suas divindades. No teatro grego e romano eram usadas na representação dos personagens, especialmente quando criaturas mitológicas faziam parte da trama.

A função primordial da máscara, portanto é a de assumir uma nova identidade. Nos carnavais, ainda que seja parte da brincadeira, o mascarado esconde-se por trás da fantasia e revela seu eu reprimido. Funciona como uma fuga das convenções sociais, das imposições morais das quais muitos se sentem presos. A máscara permite extravasar e protege das repreensões moralistas imediatas.

É neste ponto que surge o paradoxo da máscara. Com ela assume-se uma nova personalidade, ou na verdade revela-se a verdadeira? Se for assim então aquela que se supõe ser verdadeira personalidade, sem máscara, é na verdade a falsa e portando, mascarada de forma subjetiva.

Isso quer dizer que durante todo o ano, ou durante toda a nossa vida, usamos uma máscara, não feita de papel, plástico ou qualquer outro material sensível, mas uma máscara de formas e de aparências. Mascaramos-nos de polidez, de pudor, de alegria, de seriedade ou de ideologias diversas e escondemos a real natureza de nosso ser, os verdadeiros pensamentos e idéias, nossos gostos, aspirações e opiniões. Presos num sarcófago caiado de ouro, somos múmias contorcendo-se nos atavios de nossos próprios laços apodrecidos.

O arroubo de alegria carnavalesca é expressão desordenada do medo (mais um paradoxo). Mas medo do que? Justamente o medo de revelar-se. O medo de ser quem realmente se é. É como se o homem fosse uma moeda de “três faces”. Uma que se contrapõe a outra, e a terceira que ficaria no meio de forma equilibrada. Uma face representando o eu enclausurado, a contraparte é aquela que explode nos folguedos e a terceira, a equilibrada, é o eu assumido, inteligente, racional e sem máscara.

Festa da ignobilidade

Juvenal, poeta romano que viveu por volta dos dois primeiros séculos da era cristã, disse bem em sua obra Satirae “Duas tantum res anxius optat: panem et circenses” que quer dizer “O povo (romano) tem apenas dois desejos: pão e jogos circenses”. Juvenal foi um crítico bem humorado da sociedade romana, e gostava de revelar a insensatez do povo.

Era política de Roma oferecer às massas empobrecidas, com o objetivo de evitar possíveis levantes e conspirações, pão e divertimento. Todos os dias havia apresentações nos estádios onde também era distribuído alimento gratuito. Embevecidos com a “boa vontade” de seus governantes o povo se sentia satisfeito e protegido, com sorriso estampado no rosto.

A isso se presta também o carnaval. Parafraseando um outro filósofo eu diria que “o carnaval é o ópio do povo”. O carnaval brasileiro é considerado o melhor do mundo, atrai turistas de toda a parte, o mundo vem pra cá, atrás do narcótico.

Os viciados se drogam a princípio para esquecer, mais tarde drogam-se porque se tornam dependentes, como era dependente a plebe romana pelo “circo”, o espetáculo que fazia esquecer os problemas. Afinal de contas, quem gosta de pensar em problemas? Ou de ficar remoendo as dificuldades? Melhor é se divertir e esquecer mesmo. Mas tem um detalhe, esquecer não resolve os problemas, eles continuam existindo.

Essa é nossa situação. Temos o pão (ainda que nem todos) e temos o circo, para muitos é o bastante. E se o circo não é o carnaval, pode ser também o futebol, ou os famigerados programas de auditório aos sábados e domingos. Vale tudo, desde que a atenção seja desviada da realidade para o lúdico mundo da fantasia.

Infelizmente a folclórica festança vem aí. Muitos vão dançar, beber, se entregar a luxuriosa patuscada, e o país que deveria usar a máscara da tragédia ostentará o lívido e plástico sorriso da máscara da comédia.

Livros vivem

Livros tem vida própria. Você acredita nessa proposição? Pois eu acredito. Livros tem vida própria, vontade própria. Os livros são livres, não devem nada a ninguém. Livros são corajosos, falam o que tem de falar, não se calam por ninguém. São indestrutíveis, ainda que os queimem continuam existindo, são persistentes, não desistem da vida. Os livros tem muito a nos ensinar, não concorda?

O vídeo acima chama-se The Joy of Books. Produzido em stop motion pelo casal Sean Ohlenkamp e Lisa Blonder Ohlenkamp. As gravações foram feitas na livraria Type, em Toronto. A trilha sonora é de Grayson Matthews.

Primeiro de tudo, um feliz ano novo para todos. Tenham um ótimo 2012, cheio de realizações e que eu consiga mais leitores para o blog.

Enquanto não escrevo algo de substancioso, quero compartilhar com vocês um vídeo que um amigo postou no Facebook e que achei muito legal. Nele a jornalista Raquel Sherazade, da Paraíba, faz um breve comentário sobre a febre do carnaval e suas implicações sociais. Achei ótimo.

Raquel Sherazade

Quem quiser ler um pouco mais sobre o carnaval, e saber o que eu acho dessa festa é só clicar aqui.

Encontrei sem querer este vídeo com animação baseada no mito descrito por Platão em seu livro “A República”.

A adaptação segue de forma um tanto grosseira se comparada a narrativa original (que pode ser lida aqui), mas serve de conteúdo didático para que se entenda um pouco melhor o que quis dizer Platão. Assitam e comentem.

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