No antigo blog Filosofando eu comecei um trabalho que pretendo terminar. Colecionar num único livro a vida de mulheres que representaram um papel importante na História do mundo.
O texto a seguir já foi publicado no Filosofando mas quero dar continuidade ao projeto republicando aqui os primeiros trabalhos.
Já escrevi sobre Eva, Hatchepsut e Débora. Para os que não leram ainda será novidade, quem já leu pode reler novamente e deixar novos comentários. Logo o Filosofando vai sair da rede e o texto só se encontrará aqui.
Eva
Segundo o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, a primeira mulher, criada por Deus, foi Eva. Para o judaísmo e cristianismo a fonte textual que narra a criação do mundo e dos seres humanos é a mesma, o Bareshit hebraico que tem o nome de Gênesis nas Bíblias cristãs narram que no sexto dia da criação Deus resolveu criar o gênero humano, apenas um casal, que deveriam se multiplicar e encher a Terra.
Embora o livro de Gênesis seja tradicionalmente atribuído a Moisés existe um consenso entre os especialistas dos textos bíblicos de que tanto o Gênesis como os outros livros que são atribuídos a Moisés sejam uma coletânea de textos advindos de duas tradições hebraicas distintas. Os especialistas costumam chamar as duas tradições de Javistas e Eloístas. A essas tradições somam-se outras, como a sacerdotal. Esses textos teriam sido incorporados em volumes únicos por volta do reinado de Salomão, ou durante o período pós-exílio da Babilônia, formando o que se chama de Tetrateuco.
Leiam a seguir os textos das duas fontes que narram a criação do homem e da mulher.
Tradição Eloísta/Sacerdotal:
Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.
Criou Deus o homem à sua imagem,
á imagem de Deus o criou;
homem e mulher os criou.
Gênesis 1:26, 27
Tradição Javista:
Então Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego da vida, e o homem se tornou um ser vivente.
… o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele. Disse então o homem:
Esta, sim, é osso dos meus ossos
e carne da minha carne!
Ela será chamada mulher,
porque do homem foi tirada.
Gênesis 2:21-23
Existe um forte debate sobre se as duas correntes apresentadas fazem relatos distintos e incompatíveis da criação. Porém, a versão tradicionalmente reconhecida da história de Eva resulta da tentativa de harmonizar os dois relatos. Com isso a história de Eva se desenrola da seguinte forma: no sexto dia Deus cria primeiro o homem e depois o faz cair num sono profundo, tira-lhe uma costela e dela faz a mulher. Nesses relatos a mulher ainda não tem o nome de Eva, o homem a chama de “mulher”, “será chamada mulher, porque do homem foi tirada”, essa exclamação de Adão em forma de poema é um jogo de palavras que correspondem a homem e mulher no hebraico, respectivamente ish e isha.
O homem e a mulher viviam no Jardim do Éden e receberam instruções de Deus para que não comessem da árvore da “ciência do bem e do mal”.
Nesse momento entra em cena no drama um novo personagem a partir do capítulo 3 de Gênesis, é a serpente. Embora nos livros seguintes do Tetrateuco, nem nos que vieram depois se entre na questão do que, ou de quem seria a serpente, o Novo Testamento irá relacioná-la com o diabo.
A serpente trava um debate com a mulher e convence-a de que Deus estava privando-os de serem semelhantes a Ele. Eva come do fruto e depois oferece ao seu marido que também o come. O relato diz que “perceberam que estavam nus”, envergonharam-se e cozeram folhas de parreira para fazer roupas.
Na virada do dia Deus vem visitar o casal que por sua vez busca refugiar-se, pretendendo fugir da presença Divina. Deus pergunta porque comeram do fruto e Adão diz que a culpa tinha sido da mulher que Ele lhe tinha dado, a mulher por sua vez disse que a culpa era da serpente. Em decorrência do acontecido o casal recebe sua sentença, o homem comeria do pão com o suor do rosto, e a mulher teria “multiplicada” as dores do parto, seu desejo seria para o marido e ele a “dominaria”, e a sentença que caberia a ambos seria a de que eram pó e ao pó retornariam.
Após a queda o relato diz que o homem chamou sua mulher de Eva, por ser a mãe de todos os viventes. Salienta-se aqui o dom da maternidade da mulher, no hebraico a palavra para “viver” é hayah, forma bem aproximada de Havvah que é Eva em hebraico.
Adão e Eva foram expulsos do jardim e tiveram muitos filhos. O primeiro foi Caim, em agradecimento Eva exclamou “Adquiri um homem com a ajuda do Senhor”. O segundo filho foi Abel. O relato nos diz que Caim mais tarde matou Abel. Algum tempo depois Eva teve Set e no capítulo 5 de Gênesis é dito que com Adão ela teve filhos e filhas. A Bíblia relata que Adão viveu 930 anos, mas não diz nada sobre quantos anos Eva viveu.
Aqui termina a história de Eva no Gênesis, mas em muitos livros apócrifos, obras geralmente não incorporadas ao cânon sagrado, novos detalhes sobre sua vida são mencionados. Neles é dito que o casal viveu sete anos no paraíso até a queda, e que após a expulsão foram morar numa caverna chamada de “Caverna dos Tesouros”. Afirma-se também que Adão morreu primeiro e que ambos eram dotados de esplendida formosura.
Eva hoje
Embora os livros sagrados das três maiores religiões monoteístas sustentem a história da criação do primeiro homem e mulher, as opiniões sobre se os relatos são alegorias ou se devem ser entendidos de forma literal, são muito divergentes. Muitas são as vertentes dentro do cristianismo que advogam o caráter figurativo do relato criacionista, o catolicismo por exemplo não se opõe ao evolucionismo desde que se acredite que em algum momento dentro das grandes eras um primeiro casal tenha surgido. Existem porém grupos mais ortodoxos e que mantém a crença do caráter literal da narrativa.
O fato é que sendo literal ou não, a figura de Eva ainda é muito forte dentro da cultura ocidental, tendo inspirado poetas, pintores, músicos e também fornecendo assunto para ensaios filosóficos e teológicos. Dentro da estrutura doutrinal de muitas religiões Eva aparece como sustentáculo de crenças muitas das vezes desfavoráveis para as mulheres, por ter sido a primeira a pecar muitos movimentos religiosos usam isso como argumento para que a mulher não tenha um papel ativo dentro de suas organizações. Outras religiões porém não encaram dessa forma a história de Eva e afirmam que ambos, tanto Eva como Adão, são portadores de igual culpa, merecedores de igual graça e que possuem direitos iguais dentro da estrutura hierárquica eclesial.