Festa da Carne
Eis que se aproximam as festividades carnavalescas. Para muitos um período de alegria, para mim de consternação. Confesso minha antipatia para com essa festa inebriantemente funesta. E para os que gostam dela tenho a oferecer apenas o meu respeito, e isso já é mais do que suficiente, afinal de contas gosto é gosto, e “às vezes” gosto não se discute.

O carnaval é uma festa antiga. Alguns acreditam que suas raízes mais profundas encontram-se no Egito dos faraós, mais precisamente em rituais festivos em homenagem à deusa Ísis. Outros encontram correlatos nas bacanais, reuniões orgíacas em homenagem a Baco, o deus do vinho greco-romano. Outras três festividades romanas entram também na progênie do carnaval, a Carrum Navalis, as Februalias e Lupercalias. Carrum Navalis era a entrada do corpo de guerra naval que abrilhantava as Dionisíacas, festas dedicas a Dionísio, que era o mesmo e já referido, Baco. Alguns estudiosos até vêem na locução Carrum Navalis a origem da palavra carnaval, embora seja possível talvez se trate apenas de uma coincidência lingüística.

O jovem Baco (1884) de William-Adolphe Bouguereau
As Februalias e Lupercalias, muito celebradas na época dos Césares, eram festas realizadas no último mês do calendário romano, o nosso fevereiro, inclusive a palavra fevereiro vem de Februss, que era o deus celebrado durante as Februalias. Februss era o deus etrusco da morte que encontrava seu equivalente no Plutão dos romanos e o Hades do gregos. As festas fundamentavam-se na idéia de purificação e renovação da vida. Sacerdotes vestidos com peles percorriam as ruas açoitando mulheres com chicotes feitos com tiras de couro de bode, isso livraria o povo dos maus espíritos e de maus agouros, e ao mesmo tempo concedia às açoitadas a benção da fertilidade.
Mais tarde estas festividades seriam “cristianizadas”. Mais uma vez, com o intuito de solapar o paganismo em terras católicas, a igreja tratou de modificar o ritual romano, dando-lhe nova roupagem com a comemoração do martírio de São Valentim em 14 de fevereiro, dia que antecedia o final da Lupercal. Porém, nada impedia que neste período as festas fossem realizadas com muita diversão e excessos, desde que ao início da Quaresma tudo isso fosse abdicado.
Nessa época de festejos o povo estava livre para comer muita carne, coisa que era vista como sinônimo de pecado, pois as classes mais abastadas, que consumiam muita carne, eram também as mais dadas à luxúria. A igreja, mestra em analogias descabidas, associava uma coisa a outra.
Sendo o “comer carne” sinônimo de pecado, então que o povo comesse dela antes da Quaresma, pois durante a mesma deveria dela se abster, daí o “carne levare” que significa “abstenção de carne”. Essa expressão sim, parece ser a mãe da palavra carnaval.
Festa das Máscaras
Cada povo europeu celebrava a pândega, entre a Festa de Reis e início da Quaresma, da melhor forma que lhe aprouvesse. Porém, as folias mais populares e mais difundidas foram as venezianas com seus bailes de máscara. Aqui no Brasil o costume arraigou-se graças a uma atriz chamada Clara Dalmastro que em 1946 realizou, no teatro São Januário do Rio de Janeiro, o primeiro baile de máscaras num ambiente de espetáculos.
O uso de máscaras também descende de tradições antigas, especialmente em rituais mágicos, sacerdotes mascarados figuravam melhor suas divindades. No teatro grego e romano eram usadas na representação dos personagens, especialmente quando criaturas mitológicas faziam parte da trama.
A função primordial da máscara, portanto é a de assumir uma nova identidade. Nos carnavais, ainda que seja parte da brincadeira, o mascarado esconde-se por trás da fantasia e revela seu eu reprimido. Funciona como uma fuga das convenções sociais, das imposições morais das quais muitos se sentem presos. A máscara permite extravasar e protege das repreensões moralistas imediatas.
É neste ponto que surge o paradoxo da máscara. Com ela assume-se uma nova personalidade, ou na verdade revela-se a verdadeira? Se for assim então aquela que se supõe ser verdadeira personalidade, sem máscara, é na verdade a falsa e portando, mascarada de forma subjetiva.
Isso quer dizer que durante todo o ano, ou durante toda a nossa vida, usamos uma máscara, não feita de papel, plástico ou qualquer outro material sensível, mas uma máscara de formas e de aparências. Mascaramos-nos de polidez, de pudor, de alegria, de seriedade ou de ideologias diversas e escondemos a real natureza de nosso ser, os verdadeiros pensamentos e idéias, nossos gostos, aspirações e opiniões. Presos num sarcófago caiado de ouro, somos múmias contorcendo-se nos atavios de nossos próprios laços apodrecidos.
O arroubo de alegria carnavalesca é expressão desordenada do medo (mais um paradoxo). Mas medo do que? Justamente o medo de revelar-se. O medo de ser quem realmente se é. É como se o homem fosse uma moeda de “três faces”. Uma que se contrapõe a outra, e a terceira que ficaria no meio de forma equilibrada. Uma face representando o eu enclausurado, a contraparte é aquela que explode nos folguedos e a terceira, a equilibrada, é o eu assumido, inteligente, racional e sem máscara.
Festa da ignobilidade
Juvenal, poeta romano que viveu por volta dos dois primeiros séculos da era cristã, disse bem em sua obra Satirae “Duas tantum res anxius optat: panem et circenses” que quer dizer “O povo (romano) tem apenas dois desejos: pão e jogos circenses”. Juvenal foi um crítico bem humorado da sociedade romana, e gostava de revelar a insensatez do povo.
Era política de Roma oferecer às massas empobrecidas, com o objetivo de evitar possíveis levantes e conspirações, pão e divertimento. Todos os dias havia apresentações nos estádios onde também era distribuído alimento gratuito. Embevecidos com a “boa vontade” de seus governantes o povo se sentia satisfeito e protegido, com sorriso estampado no rosto.
A isso se presta também o carnaval. Parafraseando um outro filósofo eu diria que “o carnaval é o ópio do povo”. O carnaval brasileiro é considerado o melhor do mundo, atrai turistas de toda a parte, o mundo vem pra cá, atrás do narcótico.
Os viciados se drogam a princípio para esquecer, mais tarde drogam-se porque se tornam dependentes, como era dependente a plebe romana pelo “circo”, o espetáculo que fazia esquecer os problemas. Afinal de contas, quem gosta de pensar em problemas? Ou de ficar remoendo as dificuldades? Melhor é se divertir e esquecer mesmo. Mas tem um detalhe, esquecer não resolve os problemas, eles continuam existindo.
Essa é nossa situação. Temos o pão (ainda que nem todos) e temos o circo, para muitos é o bastante. E se o circo não é o carnaval, pode ser também o futebol, ou os famigerados programas de auditório aos sábados e domingos. Vale tudo, desde que a atenção seja desviada da realidade para o lúdico mundo da fantasia.
Infelizmente a folclórica festança vem aí. Muitos vão dançar, beber, se entregar a luxuriosa patuscada, e o país que deveria usar a máscara da tragédia ostentará o lívido e plástico sorriso da máscara da comédia.